Fabián Severo

Fabián Severo

2 jun. 2013

Prólogo a VIENTO DE NADIE (2013)

O PORTUÑOL DO CORAÇÃO
DE FABIÁN SEVERO
Aldyr Garcia Schlee

Como Fabián Severo, sou fronteiriço. Ele, de Artigas-Quaraí; eu de Jaguarão-Río Branco. Somos como que doble-chapas, na vivência gostosa e inolvidável das muitas alegrias e tristezas que têm sido sempre as doces tristezas e as amargas alegrias da fronteira comum que nos une e que nos faz irmãos, independentemente da língua que falemos ou utilizemos literariamente.

Como Fabián, escrevo; escrevemos, os dois. Somos escritores: ele, uruguaio; eu, brasileiro. Eu, prosador, escrevendo em português ou espanhol – num portugués carregado de americanismos hispânicos; ou num español já definido como “muy desprolijo”. Ele, poeta, com a coragem e o domínio dos recursos lingüísticos que o caracterizam, aqui enveredando e investindo no seu próprio, muito criativo, muito original e muito característico portunhol.

Neste livro de poemas – VIENTO DE NADIE – Fabián, pela segunda vez, incursiona literariamente pelo seu portuñol. Em junho de 2010, através da editora DEL RINCÓN, de Montevidéu, estreara com NOITE NU NORTE – POEMAS EN PORTUÑOL, um livro que tive a felicidade de ler e apreciar naquele mesmo ano; e no qual o autor – que logo se fez um grande e querido amigo nosso (meu e de minha mulher) advertia: “Aún tengo cosas por decir”. E tinha mesmo.

Javier Etchemendi, ao prefaciar esse primeiro exercício poético de Fabián Severo em portuñol – NOITE NU NORTE – disse inicialmente: “Este libro es un atrevimiento y por eso no lo perdono. No está escrito ni en el español de España, al que tanto imitamos, ni en el portugués de Brasil, al que ya quisiéramos poder imitar. Es un libro concebido en portuñol. Displicentemente leí este texto. Extrañamente amé este texto”. (Concluiu o prefaciador:”NOITE NU NORTE es un libro incómodo que no se olvida, como una buena película o una estruendosa cachetada”.)

Nesse mesmo livro, ficamos sabendo de Fabián como ele era: “un día, quise sacar algunos recuerdos, pero no salían. De tanto buscar, descubrí que el español no era mi lengua, y hallé en el portuñol mi corazón”.

Como esquecer o que Fabián Severo disse, então, de ser fronteiriço? – “De tanto caminar, aprendí que no soy de ningún lugar, soy de la frontera. Un lugar donde los pájaros vuelan libres y sueltos por el aire, cantando un idioma que todos entienden”.

Assim é que em VIENTO DE NADIE, como fronteiriço, Fabián optou, outra vez pela linguagem de seu coração. E – tendo coisas por dizer – oferece-nos mais uma vez
um punhado de numerados e extraordinários 32 poemas no seu portuñol.

O portunhol (ou portuñol) é um conhecido fenómeno linguístico que caracteriza o espanhol e o portugués falados sobre as linhas divisórias que separam o Brasil do Uruguai, da Argentina, do Paraguai, da Bolívia, do Peru, da Colômbia e da Venezuela, unindo-os culturalmente em contíguos espaços urbanizados das respectivas fronteiras comuns.

Tão extensa é a fronteira brasileira com os países vizinhos de língua espanhola que, ao longo dos limites territoriais entre esses países e o Brasil, desenvolvem-se diferentes tipos de portunhol, marcados cada um por maior ou menor influência de um ou outro dos idiomas na formação local da variedade dialetal comum.

No Paraguai, há o portunhol dos chamados brasiguaios, no interior do país; e o portuñol de Foz do Iguaçu. Aliás, no Paraguai, realizou-se em dezembro de 2007 a primeira edição do evento ASUNCIÓN, KAPITAL DE LA FICCIÓN. O objetivo do colóquio era celebrar a ficção produzida em “portunhol selvagem”, que constituía – no dizer da revista PIAUÍ (N°16, Janeiro de 2008, p.12) – “uma espécie de dialeto transfronteiriço nascido por combustão espontânea em alguns países da América Latina”. Na ocasião, a mesma revista anotou que o organizador do evento e principal artífice “del portuñol salvaje” era o poeta Douglas Diegues, autor de DÁ GUSTO ANDAR DESNUDO POR ESTAS SELVAS, reunião de “poemas selvagens”.

Mas, para felicidade nossa, o portunhol da frontera uruguaio-brasileira está muito mais cerca de nós. É o que nos interessa. E não é preciso ir ao Paraguai (ou à Venezuela, que seja) para reconhecer que aqui temos para cada espaço fronteiriço comum, entre Brasil e Uruguai, uma forma diferente e mais ou menos rica de portunhol – desde o Chuy-Chuí a Jaguarão-Río Branco, de Aceguá- Aceguá a Rivera-Santana do Livramento, e até Artigas- Quaraí.

O português do Chuí, como o de Santa Vitória do Palmar, o de Jaguarão, o de Aceguá, o de Bagé, o de Dom Pedrito, o de Santana e o de Quarai não é o mesmo do interior do Rio Grande do Sul nem o do resto do Brasil; o espanhol do Chuy, como o de Treinta y Três, o de Río Branco, o de Melo, o de Tacuarembó, o de Rivera e o de Artigas, não é o mesmo espanhol de Montevidéu ou o do resto do Uruguai. O português e o espanhol dessa nossa fronteira comum, em seu uso corrente sobre a linha divisória, impõem em princípio um sistema bilíngue composto, na verdade, por duas maneiras de falar: a dos dialetos fronteiriços do português do Brasil e a dos dialetos fronteiriços do espanhol do Uruguai.

Trata-se de um fenômeno linguístico da maior riqueza e expressão – que Fabián Severo tem dominado com êxito e conhecimento de causa e que vem explorando de forma literária própria e característica, com seu rico portuñol pleno de criatividade e originalidade.

VIENTO DE NADIE, assim, não se fez e se faz tão somente como um belo e importante livro de poesia; é também eloquente testemunho do domínio do autor sobre a linguagem fronteiriça de sua região. Explorando a riqueza lexicográfica à disposição dessa linguagem, Fabián desenvolve um sistema fônico correspondente estritamente ao seu portuñol artiguense, distinto, como se sabe, do portunhol riverense e do portunhol melense
(ou do jaguarense, como sei eu). Além de estar atento à morfologia do verbo e do artigo, própria da fronteira, e de adotar soluções consonantais e sintáticas características, recria e constrói as mais variadas combinações na construção de sua fala, seja no emprego de dissimilações, metástases, crases e elisões, seja no uso de formas ortográficas simplificadas.

Fabián alcança, assim, a partir da reconstrução da língua falada na fronteira de Artigas-Quaraí, a formulação e o registro de uma língua escrita – que, por fim, consagra literariamente na construção de seus poemas. E que é o seu portuñol, que lhe está no coração. Não é pouca coisa, para um jovem de 32 anos.

Ao mesmo tempo, esse jovem escritor fronteiriço faz com seu portuñol uma aproximação literária com os padrões da fala, adotando uma linguagem coloquial que não só garante a autenticidade de seu texto como o coloca no plano da oralidade – da qual se originou e através da qual, mais do que ser lido, pode e deve ser ouvido.

Fabián Severo é herdeiro literário, à distância, de outro ilustre artiguense: o sempre elogiado mas pouco lembrado Eliseo Salvador Porta que, mesmo se afastando da linguagem coloquial, nunca omitiu em sua obra, de reconhecida e requintada pureza lexicográfica, a marca característica dos brasileirismos de sintaxe e morfologia típicos de sua terra fronteiriça.

Como Salvador Porta, Fabián deixa transparecer em sua literatura – particularmente em VIENTO DE NADIE – a perplexidade ante o sofrimento, a insubmissão ante a miséria, a inconformidade ante a injustiça. E faz de seus poemas curtos e incisivos, um repositório de lembranças (como para não esquecer a injustiça, a miséria e o sofrimento). São versos sofridos, pungentes e de grande alcance na compreensão das vidas, dos viveres e dos fazeres dos falantes do portuñol de Artigas-Quaraí.

Os versos seguintes nos dão bem o caráter do livro.

Dios quitó casi tudo de uno
pur iso intento agarrar los recuerdo
i prender eyos bien fuerte contra us oio
pra que a noite noum caiga en la alma
i mincontre mas solo

Capão do Leão, março de 2013

(Prólogo a VIENTO DE NADIE. Rumbo Editorial. Montevideo. 2013) 

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